infochpdpict000062607749Um escritor negro, de origem humilde, que passou por duas internações no hospício e sempre se manteve à margem da cena literária. Afonso Henriques de Lima Barreto será o autor homenageado da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que vai acontecer entre os dias 26 e 30 de julho de 2017. A escolha vai de encontro às críticas recebidas pela festa na edição deste ano, principalmente a ausência de negros na programação principal.

Homenagear Lima Barreto era um desejo antigo de Josélia Aguiar, que assumiu a curadoria do evento no início do mês passado. Em 2013, a jornalista lançou uma campanha para que o escritor fosse homenageado na Flip do ano seguinte, mas a organização optou por Millôr Fernandes.

— Há um conjunto de nomes que são sempre lembrados, mas eu estava pessoalmente muito envolvida com o Lima. Uma sorte que todos toparam — diz Josélia.

A curadora reconhece que há uma reivindicação grande pela ampliação da presença de negros e mulheres nos eventos literários. Ela destaca que poucos autores negros alcançaram visibilidade depois de Lima Barreto e essas são questões que a interessam.

— Eu venho da Bahia, onde o movimento negro e o debate do racismo é muito presente. Já a questão da autoria feminina me interessa primeiro porque sou mulher. Isso é estimulante. Todo essa debate de minorias tem a ver com o próprio Lima — afirma ela.

Joselia lembra que a biografia do autor é marcada por acidentes. Filho de pai tipógrafo e mãe professora, ele garantiu a mesma educação da elite da época graças ao apadrinhamento do Visconde de Ouro Preto, ministro do Império. Ingressou na Escola Politécnica em 1897, mas nunca terminou o curso de Engenharia. Reprovado várias vezes, o escritor foi obrigado a trabalhar para sustentar os irmãos, devido a problemas psiquiátricos do pai. Em 1903, ele consegue um cargo no Ministério da Guerra e começa a colaborar com crônicas e artigos para diversos jornais. Seu primeiro romance, “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, foi lançado em 1909.

MORTE PREMATURA

Dois anos depois, Lima Barreto publica, em formato de folhetim, o romance “Triste fim de Policarpo Quaresma”. Sua obra mais célebre só sairia em livro em 1915, após sua primeira internação no hospício. O autor morreu jovem, aos 41 anos, em São Paulo. Essa trajetória conturbada abre diversas possibilidades para a curadoria, avalia Joselia.

— Lima é um personagem rico, capaz de suscitar muitos debates sobre o preconceito, a política. Ele era muito crítico da sociedade brasileira e alguns pontos que ele observa, certas estruturas sociais, permanecem. Lima se sentiu atingido pelo preconceito. Ele achava que por isso não conseguia maior repercussão para a sua obra. Mas, para além de toda a riqueza da biografia dele, quero mostrar como ele é interessante como autor. Os livros dele devem ser mais lidos e ele reconhecido como o grande autor que é — diz a curadora.

Beatriz Resende, professora titular da Faculdade de Letras da UFRJ e especialista na obra do escritor, acredita que essa é a hora certa para a homenagem.

— É até bom que não tenha sido antes. Porque agora o país está fervendo com tantas discussões, é o melhor momento para Lima Barreto vir à tona — afirma Beatriz.

RÓTULO DE MARGINAL

A professora não gosta do rótulo de “marginal” que muitas vezes acompanha o autor. E defende outras formas de explorar o seu legado. Ao pesquisar sua atividade na imprensa, ela encontrou diversas campanhas feitas na época, como quando Lima Barreto tentou mobilizar a cidade contra o assassinato de mulheres e contra a demolição de prédios históricos nas reformas urbanas no Rio de Janeiro.

— Reduzi-lo a um autor marginal reverte o valor da obra dele. Ele era mais uma figura independente do que qualquer outra coisa, um escritor que não foi seduzido pelo poder, que não foi cooptado nem pelo governo, nem pela imprensa e nem pelo mundo editorial. As coisas que ele dizia nos jornais eram impressionantes, só alguém com muita independência podia dizer aquilo.

Para o ano que vem, a Flip vai abrir um programa de patronos. A iniciativa é voltada a pessoas físicas que desejem apoiar o evento e suas ações educativas. Entre os benefícios estão ingressos, convites para coquetel com participação de autores e encontros com a curadoria. A festa literária está com dificuldades para captar recursos de empresas em meio à crise econômica.

Fonte: O Globo

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